Voando para o ENU de Itaparica - 2014

gilberto bitar

21.jun.2014

"... Mas, nessas horas sempre tem o "masss", ao examinar o "vaso" vi que era um viveiro de jia (já imaginaram eu sentado no vaso e as jias saltando em minhas partes?) Tô fora". Depois que o cidadão se foi, pedi pra Naza ficar de vigia que eu ia me aliviar no mato mesmo. Antes porém fiz bastante barulho pra espantar as cobras (já pensou uma cobra mordendo o meu coisa e tal?) O problema é que a Naza não sabia se ria ou ficava de vigia... Dramático ..."

O ENU deste ano, pela complicada logistica, preços altos e confusa mobilidade em razão da Copa FIFA-2014, que aconteceria exatamente no tradicional "Corpus Christi", que estava definido para Itaparica, em Salvado/BA - uma das cidades sede, não aconteceu no feriado de "Corpus Christ", tendo sido antecipado para o dia 15 de maio. Como já é tradicional para nós, fomos ao ENU em Itaparica. Naza e eu.

Como seria uma viagem mais longa, ainda no período chuvoso, meus médicos, orientados pelo Octávio Lobo nosso MACABUL, considerando os meus jovens 77 aninhos, resolveram fazer um completo e rigoroso chek-up. Só fui liberado após um cateterismo na quinta-feira que antecedeu a semana da viagem. Bom, já que tava zerado, convoquei dona Naza para os preparativos finais e na terça-feira, 13 de maio, nós decolamos para Imperatriz, com vento de proa, que não nos deixou passar dos oitenta nós (o velocímetro do avião do Nallin, não marca em "nós", só marca em ”lacinhos”...).

Naza tirando fotos, lendo e, às vezes, navegando num vôo de três horas tranqüilo. Pousamos na pista do Junior onde abastecemos e seguimos para Carolina com mais uma hora, para pernoite. Fomos recebidos pelo já conhecido "Pranada", apelido dado pelos gozadores de que ele não serve pra nada, na realidade ele é o abastecedor, é quem hangara os aviões, quem nos transporta para o hotel e fica a disposição "pratudo".

Carolina, pra quem não conhece, é um lugar aprazível com boas pousadas para quem vai desfrutar de suas belas cachoeiras. Surpreende também a moderna e bem equipada oficina de aviação PIPES que tem uma equipe técnica de primeira linha. Depois de quatro horas de vôo, um almoço especial com galinha caipira ao molho pardo num restô especial pra onde o "Pranada" nos mandou, foi pousada e cama até as sete da noite. Êta vidinha "marromenos" como diria meu "guru" Octávio.

Na quarta-feira, 14, seguimos de Carolina pra Bom Jesus do Gurguéia no PI; mais duas hora e meia com um ventão de proa. Alí a paisagem começa a mudar, quando surgem os grandes platôs com muito cultivo de soja.

Continuamos num vôo sereno e, para desagrado da Naza, sem turbulência, o que para ela perde o espírito da aventura, pois acha que uma boa tur-bu-lên-cia-zi-nha dá uma "apimentada" no vôo, mas quem tem que segurar o manche é o piloto escravo dela.

Mas... tudo bem. Em B.J. do Gurguéia o Soliney estava à postos para o abastecimento, ele que já era nosso conhecido desde o ano passado quando da ida para o ENU em Trancoso. Abastecido o Patriot, o estômago, e a mente, depois que colocamos o papo em dia, decolamos com o ventão "de prua" como diz o caboco aqui no Pará.

E lá vai nosso Patriot com sua "palheta" puxando o vento pra trás, rumo a capital da Chapada Diamantina: Lençois na BA. Alí começamos a ver os afluentes secos do Velho Chico e a Chapada com toda sua beleza e sua plenitude, vista só pelos pássaros e por nós que voamos.

O rio São Francisco chega e fica pra trás. É muita água, muita história que dá tempo de admirar aqui de cima... Como é bom voar... E lá "" Lençois, com seus casarios históricos, seus restaurantes nas ruas e praças, com pessoas alegres e bonitas e ali juntou-se a nós o Octávio que chegou com o seu RV 9.

Instalados numa pousada, minha pedreira (rins) resolveu entrar em produção de novo e sem aviso prévio. Acionei, claro, o nosso MACABUL que me injetou um Profenid. Deu pra jantar, tomar um vinho e ir dormir? Quem disse... passei a noite em "trabalho de parto". Já ouviram falar do Santo Expedito - aquele dos casos impossíveis? Pois é, levei um papo com ele explicando que se a pedra não saísse durante a noite, iria estragar o passeio de todo mundo. Bom, 'Ele falou que não era assim tão simples mas que iria consultar os Superiores'. Passei a noite me contorcendo no banheiro, para não assustar a Naza. Pela madrugada veio o alívio - o pedregulho foi para a bexiga e mais uma vez o "Ditinho" me ajudou. Esse "Expedito", além de santo é um cara "quentchura", acreditem.

De Lençóis pra Itaparica tinha a previsão de só uma horinha de vôo... quem dera!!! Com o Octávio de batedor e eu na cauda sabendo ambos que a meteoro não estava boa. Logo nos primeiros trinta minutos o Octávio manda que eu pouse em uma pista de terra na rota, pois pra frente estava ruim e ele seguiria para checar.

Pousei em Iaçu BA... Um hangar fechado e só. Logo veio um cidadão saber se estava tudo bem. Não titubeei e pedi para usar o banheiro do hangar, no que fui prontamente atendido. Mas, nessas horas sempre tem o "masss", ao examinar o "vaso" vi que era um viveiro de jias (já imaginaram eu sentado no vaso e as gias saltando em minhas partes?) Tô fora. Depois que o cidadão se foi, pedi pra Naza ficar de vigia que eu ia me aliviar no mato mesmo. Antes porém fiz bastante barulho pra espantar as cobras (já pensou uma cobra mordendo o meu coisa e tal?) O problema é que a Naza não sabia se ria ou ficava de vigia... Dramático...

Aliviado recebi um telefonema do Octávio; graças, estávamos em contato. Ele havia pousado mais adiante em Amargosa BA, pista asfaltada com bom apoio e com indicativo que plotei em meu GPS e achei as coordenadas. Falei que iria pra lá, no ele que disse não, pois estava chovendo e o teto baixo sobre os morros... Espera, falou... Só eu e a Naza ali no meio do quase nada, angustiante.

Sorte é que a Naza não esquenta e ficou por ali catando "capim dourado" pra trazer pra nossa filha Gilna. Pode? Depois de mais de uma hora liguei pro Octávio e falei que estava indo, ele disse: - "não tá muito bom, mas vem por cima da estrada e qualquer coisa volta".

Decolei e fui pela estrada. O GPS apontando pra cima dos morros à direita, lá no fim da reta da estrada um paredão de chuva, só restava voltar ou seguir o GPS por cima dos morros meio encobertos. Lembram do Santo Expedito? Tenho uma "medalinha" dele no painel. Olhei pra ela e disse: - Ôôô "Ditinho" tá contigo!!! e subi o morro. A adrenalina escorria pelo canto da boca nos  contorna aqui, lambe acolá e... lá está a estrada do outro lado. E aí, rasteiro sobre ela com indicação do GPS, Amargosa... Pousado. Nunca me senti tão seguro do que tava fazendo. Pai d'égua!!! é muito bom voar... Passou!!!

Em seguida fomos almoçar uma comida caseira no "Quiosque do Tinho", na beira da estrada, próximo a pista. Feijoada, codorna frita, carne de sol... e barriga cheia. Depois falar com Itaparica e saber que lá está chovendo como aqui, esperar a tarde toda e nada.

O Tinho dono do "Quiosque" se ofereceu para nos levar para um hotel fazenda e, Surpresa! um lugar com nome de Amargosa, no interior da Bahia, a 100 Km de Salvador, com um hotel de alto gabarito nos proporcionou um belo fim de tarde e um lauto jantar regado a vinho.

  

Dormimos muito bem, muitíssimo bem. Pela manhã o Albrecht berrou de Itaparica: - larguem os aviões aí e venham de carro, o tempo não vai melhorar... E fomos desfrutar das mordomias do Clube Med, e acima de tudo, da companhia de tantos amigos da nossa ABUL.

 

Foram muitos reencontros, com Nallin e sua Vivi, Jason e esposa, Betinho e esposa, meu amigo Noé, o JC zerado, sem falar de toda a turma da ABUL liderados pelo Albrecht e todos os avoadores de Brasília, que como sempre compareceram em maior número. O "ponto alto" foi a apresentação feita pelo Mike e Fernando, da incrível viagem que fizeram num Bravinho indo do sul do Chile até o Alaska, cruzando para a Groenlândia, Escócia e descendo até a Africa do Sul, com filmes e fotos muito bonitas.

No Sábado palestra da ANAC com bom aproveitamento, muito papo e comida. Aliás, ENU é isso: papear e comer. A noite, entrega de troféus! O de mais distante ficou para um colega do sul, e o de mais vivido (não gosto do termo "velho"), este ano, foi meu, pois o colega de Mossoró não foi, mas, maldade, dizem que foi reza minha. Estavam conosco também, meu filho Gilbertinho e minha nora Sylvia. Fomos dormir alegres pelo encontro com os amigos, prometendo voltar em 2015, não importa onde.

A volta foi de carro até Amargosa, com café da manhã delicioso no "Quiosque do Tinho" e depois voando agora com vento de "pupa" até Lençóis e B.J. do Gurguéia para pernoite. O Octávio conseguiu uma carona de um amigo num Paradise no sábado e levou seu RV para Itaparica, donde decolou domingo direto para Americana/SP.

 

Naza e eu continuamos nosso retorno tranqüilo pra casa, sem novidades, após mais um pernoite, em Imperatriz, às margens do Rio Tocantins, uma grande cidade do sul do Maranhão, na companhia de nossos amigos Alberto Nasser e família, que estava no ENU em seu foguete Lancair.

Até Belém foram duas horas e meia sobre um lençol de nuvens brancas,  onde só a vibração do motor era levemente perceptível. No retorno é quando aproveitamos para vir conversando sobre tudo o que foi a viagem e avaliando se o cansaço, o meu desempenho como piloto (levando em conta que a Naza não pilota), faça com que estejamos aptos para o próximo ENU. Eu acho que estaremos, talvez dando um pouco mais de trabalho pro Santo "Ditinho" e pro meu "Anjo de Guarda".

Voar é muito bom quando se está preparado e bem acompanhado, e eu sei que estou.

- "Não tirem as minhas asas, pois já sei que vou ficar muito triste".

Gilberto Bitar
é Piloto de Recreio e Representante Regional da ABUL.

gilberto.bitar@hotmail.com